ROGÉRIO PREGO E O REINO DA ESCURIDÃO


“Busquei meu demônio e o conquistei. Agora, se esta espécie vai ter alguma chance de sobrevivência, nós todos temos que enfrentar os demônios interiores. Temos que nos voltar para dentro. Entrar no sítio perigoso e lutar!”... (Hellblazer, por Jamie Delano).



Meu nome é Rogério Prego Nunes. Nasci em 1981 no centro-oeste brasileiro. Sou formado em História pela Universidade Federal de Goiás, Tenho publicado dois romances: PRÍNCIPE DOS LOBOS e LOTERIA DA BABILÔNIA. E um livro de contos de horror intitulado: MEU SAGRADO REINO DA ESCURIDÃO. Este último é o tema presente, sobre o qual discorrerei a linha central dos contos que o compõe.

Em 2012 publiquei a coletânea de contos “Sombras - opúsculo”, via Scribd.com, tendo como destaque o mini-conto BORBULHAR PODRE, que no mesmo ano foi adaptado para teatro pela companhia portuguesa Aquilo Teatro. Anabela Teixeira, responsável por essa adaptação, por correspondência, me informou: “utilizei o teu texto no primeiro happening do NOCTE HORRIBILIS, uma Homenagem aos mestres do terror. Foi interpretado por 5 pessoas: 2 demônios e os seus servos. E conjuguei o teatro com fogo. Os demônios traziam os seus servos acorrentados (pessoal do fogo) e apresentaram-se enquanto demônios na terra faziam um chamamento para a rua para conjugar o teatro com o fogo e foi aqui que entrou o teu texto. De alguma forma utilizei-o para mostrar ao público que eles/nós é que somos os verdadeiros demônios. Muito bom. E Muito Obrigado pelo “Sombras”. Posso te dizer que o público era bastante e para uma noite super fria, conseguimos tirar o pessoal do quentinho da tasca para vir à rua ver”.

Depois que me atrevi a lançar os meus dois primeiros romances, Príncipe dos Lobos e Loteria da Babilônia, sem nenhuma outorga e chancela de algum profissional da literatura, mas acreditando que o público leitor é a maior prova de fogo que um autor pode ter! Retomei estas narrativas com maior amadurecimento de ideias. Trata-se da minha “produção de gaveta”, formada há 18 anos. Representou para mim, um regressar nesse circuito completo e permanente, com a decisão de tocar para frente!

Comecei a revisar meus textos antigos a partir de 2007, quando digitalizei o manuscrito A ÓPERA DO HORROR. Depois fui “resgatando” outros originais de forma aleatória e publicando no Scribd.com. E em 2011, voltei minha atenção aos manuscritos DEMÔNIOS DO SOL, A Lenda e revisei A Ópera do Horror partindo dos seus textos digitalizados (são muitos!). Com o manuscrito Demônios do Sol, fui mais cuidadoso, não fiz apenas uma digitalização e revisão, mas um profundo tratamento de ampliação e resignificação conferindo-lhe ritmo sonoro. Depois foi a vez d’A Lenda ganhar o mesmo tratamento — a estória estava incompleta por se tratar de uma ouverture de um romance por escrever —, escrevi o seu complemento com um novo título: A LENDA DA CRIATURA SOLAR. Enquanto, publicava uma compilação dos textos “aleatórios” que havia posto no Scribd.com, com o título: SOMBRAS – OPÚSCULO. E mais tarde publiquei esta compilação com o título BORBULHAR PODRE, com acréscimo de A Lenda e DE CANE HOMINIDIS, um pedaço d’A Ópera do Horror e a abertura do Demônios do Sol. Suprimindo os outros textos no Borbulhar Podre e no conto CANIBAL BROS. ...

No final de 2014, resolvi retornar aos manuscritos colocando o texto Borbulhar Podre em seu devido lugar: abertura do conto O TEMPLO PAGÃO. E o primeiro texto digitalizado d’A Ópera do Horror foi revisado juntamente com seu manuscrito de 2001 e, no seu epílogo, criei um link com o Templo Pagão. E organizei os manuscritos de 1997 no mesmo conto: O INFAME, porque possuem o mesmo personagem.

O título deste livro poderia ser apenas REINO DA ESCURIDÃO ou poderia ter mantido o título anterior: CONTOS DA ESCURIDÃO. Mas como já informei sup., a intenção aqui é a retomada da trilha, a minha trilha. Por isso, o primeiro passo foi estabelecer a dialética entre Pureza e Impureza por Sagrado e Escuridão. O que há de mais profano a uma mente individualizada do que o mundo externo? Porém, da dialética exterior e interior, surge algo de novo, o que é misturado e resguardado. O interior do “EU” seria uma Escuridão Sagrada para o seu portador, proibido até para ele mesmo. Daí o título MEU SAGRADO REINO DA ESCURIDÃO.

O motor destes escritos se resvala nas influências da época, ainda um adolescente fã incondicional de filmes de terror e Heavy Metal. Queria expressar a “minha” revolta diante uma sociedade repressiva. E assim, na própria obsessão de fuga da vida cotidiana, o “EU” é transformado em argumento do relato por um fluxo contínuo ou, nos termos da psicanálise freudiana: Acheronta Movebo. O que quer dizer: mover o próprio inferno e, nesse movimento, ver surgir um “EU” maligno capaz de destruir a sociedade que o sufoca. Mais ou menos o que transmiti, também, no meu romance: PRÍNCIPE DOS LOBOS, trecho em que o protagonista Robinson encontra consigo mesmo, mas preenchendo a lacuna deixada pelo pai:

“E o lobo parado encarava-o, seus olhos ardiam como dois aros de fogo. O lobo parecia seu pai, era seu pai? [...]. Sob a mesa, entre filho e lobo, uma vela começou a queimar na sombra, não é preta, não é branca, é parda!, sua luz morna revela o véu de torpor sobre Robinson, os dentes alvos do lobo, e seus olhos de fogo fixados nele. — Pai, é o senhor? Então, o lobo rosnou em fúria pulando sobre Robinson, derrubando-o da cadeira, foi ao chão, mordendo sua barriga arrancou pedaços abrindo entrou pelas tripas que ardiam fogo, queimava, e Robinson gritava, gritava alto. Sentiu o lobo se ajeitar dentro de si e abrir caminho como uma tênia para sua cabeça, tomando sua espinha se tornou Robinson, a janela d’alma abriu-se de repente, acordou com a boca escancarada, uivando para o dia que nascia hoje”.
(Príncipe dos Lobos, p. 108).


Ou como acontece no meu romance: LOTERIA DA BABILÔNIA, com o protagonista da história: Nestor, de forma mais amena claro, ele busca encontrar a si mesmo e sua aventura particular:

“Levantei-me diante o espelho encontrando meu sujeito sob a luz que procede da pera de cem watts. Vejo seu rosto oval como uma digital junto ao espelho. Reparo seus poros notando uma leve palpitação de vida e espírito em seus olhos librianos. Vejo os fios de seus cabelos negros sob a luz, balançados por respiração. A imagem de pele parda e muito viva me olha e também me encontra como seu sujeito. Eu poderia sentir sua massa corpórea descolando do espelho como se tivesse uma aventura diante de si, enquanto atrás de si vejo o movimento de sua peregrinação como um homo viator sob a luz que procede da pera, a qual leva o nome de lâmpada, de cem watts, contínua e difusa que ilumina seu caminho de rupturas, em meio a turbilhões e relâmpagos reluzentes” [...]
(Loteria da Babilônia, p. 68).


Voltemos ao Sagrado Reino da Escuridão... Sua estrutura de escrita foi fortemente influenciada pelo Heavy Metal, o qual afronta a sociedade conservadora de forma agressiva — não com flores e ufanismo paradisíaco. Enquanto, o mundo a minha volta e os amigos que passavam por semelhantes provações, me forneceram os elementos necessários às milhares de páginas que escrevi na época (1997-2003), isto constituiu a estrutura de uma situação ideal para minha escrita. Porque, ambos, Heavy Metal e os filmes de terror, dão endereço a estas inseguranças, as quais seriam: a família de matiz burguesa, as lideranças políticas e militares corruptas e violentas, as crianças infantilizadas ao extremo da imbecilidade e a sexualidade reprimida. Assim, a sociedade com o seu sistema opressivo é identificada com toda espécie de força sobrenatural capaz de produzir criaturas em deformação, transformação e decomposição. Pois, as temáticas sombrias ou polêmicas adotam uma postura declaradamente combativa aos paradigmas sociais, exercendo a subversão dos padrões. Da mesma forma, os livros e filmes de terror, fundadores do horror moderno, como O bebê de Rosemary, O Exorcista, Poltergeist e Hellraiser, são muito específicos nas ameaças que evocam, através de metáforas de problemas sociais dando ao público um meio de se lidar com os medos concretos.

Nessas narrativas, sempre há um personagem monstruoso a ameaçar a sociedade e o seu modus vivendi. No caso dos filmes hollywoodianos, o american-way-of-life é sempre ameaçado por um desses personagens malignos, e não se espante, mas todos estes malfeitores malignos têm suas origens nas classes menos favorecidas no jogo meganha da sociedade. Que no final, sempre são mortos de vez, expurgados do seio social, ou permanecem presos nalguma dimensão, como um aviso que podem voltar... Não é isso que representa a favela no imaginário burguês? Aliás, a favela ou a periferia sempre representam os lugares que devem ser civilizados de forma militar, já reparou?

Características que não vêm de hoje, mas peculiares ao ROMANTISMO. Onde o sentimental ou o satânico traduz o entrechoque abrupto das paixões. A quebra da hierarquia cultural e social, para abrir caminho para todas as liberdades! Com deslavado impudor sentimental esse estado de coisas traz às transgressões o cunho romanesco de uma visão conspurcada da carne! No romantismo os sentimentos são qualificativos e em fusão com o ambiente, pelo qual é produzido seu senso de degradação. Mesmo assim, o romantismo procura fortalecer o desejo de viver, incutindo no homem o sentimento de rebelião contra a realidade e sua tirania. Nos grandes escritores, como em Machado de Assis, o romantismo não apenas se confunde com o realismo, mas se fundem. E nessa relação tensa, o desejo de escrever surge como uma vazão da própria condição amargurada de vida...

E aqui retornamos a ideia freudiana de Acheronta Movebo, onde o “EU” é transformado em argumento do relato por um fluxo contínuo, movendo o próprio inferno e, nesse movimento, ver surgir um “EU” maligno capaz de destruir a sociedade que o sufoca. Normalmente associada ao REALISMO FANTÁSTICO, essa ideia da “alegoria da ruína”, por certo expressionismo sensorial, injeta o insólito como palavra posta na condição de ícone, pela qual ganha seu movimento de força voraz. Dando-nos a impressão que só por meio da linguagem é possível a criação de mundos, como bem fizeram os precursores do Realismo Fantástico no Brasil: José J. Veiga e Murilo Rubião.

Como eu já informei, essas características me vieram filtradas pelo Heavy Metal e os filmes de terror. Só mais tarde, depois da lira dos meus 20 anos é que entrei em contato com a matéria bruta, quero dizer: Alan Poe, Lovecraft, Cruz e Sousa e Camilo Castelo Branco, só para citar meus preferidos. Sem esquecer o livro de contos A Marca de Caim de Brasigóis Felício, que também me deu as bases para a composição do capítulo O Pesadelo Angustiante do meu romance Príncipe dos Lobos, mas lá a influência de Máximo Gorki se fez mais íntima e onipresente. E seria leviano da minha parte não reverenciar o grande poeta adolescente, ÁLVARES DE AZEVEDO!

Minha maior influência literária, atual, sem sombras de dúvidas, é o grande escritor revolucionário MÁXIMO GORKI. Em Príncipe dos lobos e Loteria da Babilônia, juntamente com o escritor russo, ainda recebi influência de Amando Fontes, John Steinbeck e Miguel Jorge. Nascido em Goiânia eu não poderia ignorar a tradição literária da cidade (além dos já citados Brasigóis Felício e Miguel Jorge), tenho uma verdadeira paixão pelos livros de JOSÉ J. VEIGA!

Tudo Isto, é basicamente o que você vai ler nas páginas do MEU SAGRADO REINO DA ESCURIDÃO, pois todas as suas estórias tem como cenário o “EU” e seus arredores, no sonho transformado em pesadelo. Por exemplo: em um dos contos mais longos, A ÓPERA DO HORROR, encontramos a “divisão do ser”, onde dois personagens desesperados e paralelos disputam a alma, enquanto um terceiro figurante surge como o ideal sob as sombras do angelismo, mas logo cai em desgraça e ruína, não sem antes, nos encaminhar para O TEMPLO PAGÃO, o âmago ou o centro das paixões, onde se ergue O REINO DA ESCURIDÃO.

MENSAGEM DO LIVRO:

MEU SAGRADO REINO DA ESCURIDÃO não é apenas uma denúncia de um regime de opressão, adotado pela sociedade como seu sistema. Mas, representa a minha luta contra a estagnação e as formas humanas postas em condição vegetativa, como se a vida fosse uma eterna condição de nada, de simples reprodução da tradição e da religião. É nesse sentido que evoco os livros e os filmes de terror e, o Heavy Metal funcionando como substitutos à altura dos anseios de revolta, como se o leitor, o espectador e o ouvinte, pudessem vestir a pele do destruidor do sistema e da sociedade que o produz — para assim, quem sabe, construir um mundo igualitário, dinâmico, dialógico, sem repressão e, mais democrático!








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